CJT - Linguagem e [Inter]Subjectividade

ver "Pragmática da Comunicação [I]"

Poderíamos considerar a linguagem como o melhor instrumento do Homem para comunicar. A prestação da mensagem enquanto instrumento de comunicação provoca no interlocutor [e no emissor] um comportamento adequado ao que foi transmitido. Neste contexto podemos considerar que "o comportamento da linguagem admite uma descrição behaviourista em termos de estímulo e resposta". [1]
Não devemos, no entanto, confundir linguagem com discurso. O discurso pode ser considerado como a linguagem posta em acção, necessariamente entre parceiros. O papel de transmissão de uma mensagem pode ser desempenhado por meios não-linguísticos.
Falar da linguagem como instrumento é, assim, redutor. Um instrumento é algo externo ao Homem, coloca-o em oposição à Natureza. "A linguagem está na natureza do Homem, que não a fabricou".[1]
Ver o Homem como um ser separado da linguagem, procurando, ele próprio, conceber a existência do outro, é algo que não faz sentido. O que encontramos é um Homem que comunica, um Homem que fala com outro Homem. "A linguagem ensina a própria definição do Homem".[1]
Dissociar a linguagem do Homem ao considerá-la um instrumento torna-se suspeito, embora a função da linguagem enquanto objecto de troca entre dois parceiros possa levar a essa definição. Devemos, no entanto, ter em conta determinadas características desta que a tornam em algo mais que isso: a sua natureza imaterial, a sua organização articulada, o seu conteúdo. Se queremos falar de instrumento por remetermos a utilização da linguagem como objecto, devemos considerar como tal, antes de mais, a palavra.
Para que a palavra veja essa função instrumental assegurada, para que assegure a comunicação, deve estar habilitada a tal pela linguagem, de que é apenas a actualização, linguagem que confere à palavra a condição dessa aptidão.

A realidade do Homem, a sua realidade que é a do ser, só encontra fundamento na linguagem. É esta que fundamenta a constituição do Homem como sujeito, o seu ego. A subjectividade de que aqui se fala não se trata do sentimento de cada um ao experimentar ser ele mesmo. Esta subjectividade trata-se da capacidade do locutor em propor-se como sujeito. Trata-se da "unidade psíquica que transcende a totalidade das experiências vividas, que reúne e que assegura a permanência da consciência"[1], não é mais que a verificação de uma propriedade fundamental da linguagem intrínseca ao próprio ser. "É ego que diz ego".[1] O fundamento da subjectividade é determinado pelo status linguístico da pessoa.

O emprego do eu é somente possível quando nos dirigimos a alguém, o tu. Esta constatação relaciona-se com o facto de a consciência de si mesmo ser apenas possível por contraste - é constitutiva da pessoa pois implica reciprocidade: eu sou o tu na alocução do que se designa por eu.

"A linguagem só é possível porque cada locutor se apresenta como sujeito, remetendo a ele mesmo como eu no seu discurso. Por isso, eu propõe outra pessoa, aquela que, sendo embora exterior a 'mim' torna-se o meu eco - ao qual digo tu e que me diz tu. A polaridade das pessoas é na linguagem a condição fundamental, cujo processo de comunicação, de que partimos, é apenas uma consequência totalmente pragmática". [1]
Esta polaridade apenas existe na linguagem. Não significa igualdade nem simetria, o ego tem sempre uma posição de transcendência em relação a tu. Nenhum dos termos é concebível sem o outro - são complementares numa oposição interior/exterior e, ao mesmo tempo, reversíveis. Não se trata de uma dualidade ou antinomia, trata-se antes de uma dialética. "Única é a condição do Homem na linguagem". [1]
O fundamento linguístico da subjectividade descobre-se numa realidade dialética que engloba os dois termos [eu e tu] e os define pela sua relação mútua.

A linguagem é de tal forma marcada pela subjectividade que nos perguntamos se poderia existir sem esta. A utilização dos pronomes pessoais é disso exemplo: entre os signos de qualquer língua, de qualquer tipo, região ou época, estes surgem sempre. "Uma língua sem expressão de pessoa é inconcebível".[1]

A distinção dos pronomes de qualquer outra designação que a língua articula é notória: não remetem nem a um conceito nem a um indivíduo. O conceito eu não engloba todos os eu que são enunciados a todo o instante por todos os interlocutores. O eu não denomina nenhuma entidade lexical. Assim, estamos na presença de algo muito singular: não sendo admissível que o mesmo termo possa referir-se, ao mesmo tempo, ao locutor e aos restantes individuos, os pronomes pessoais enquadram-se numa classe aparte de todos os outros signos linguísticos - refere-se apenas ao acto de discurso individual no qual é pronunciado e designa o locutor desse acto. A sua singularidade é determinada pelos seguintes factores: o eu apenas pode ser identificado dentro do acto de fala; é pelo discurso, pelo exercício da língua, que o sujeito se constitui como tal [não existe subjectividade sem linguagem]; pela forma como é organizada a linguagem, qualquer locutor pode apropriar-se da língua toda, designando-se como eu.
Dos pronomes pessoais dependem ainda outras classes de pronomes, participando no mesmo status. São os demonstrativos, advérbios, adjectivos - indicadores da deixis [ou deícticos] que se encarregam de organizar as relações espaciais e temporais em torno do sujeito. Definem-se apenas com relação à instância do discurso na qual são produzidos, sob a dependência do eu.

O domínio da subjectividade amplia-se e chama a si a dimensão da temporalidade, organização linguística da noção de tempo. Embora uma língua distinga sempre tempos [passado e futuro separados por um presente ou presente-passado por oposição a um futuro] a referência será sempre o presente, isto é, o tempo em que se fala. A coincidência do acontecimento descrito com a instância de discurso que o descreve: a marca temporal do presente só pode ser interior ao discurso - o tempo em que se está é o tempo em que se fala, esse é o momento eternamente presente. "A temporalidade humana com todo o seu aparato linguístico revela a subjectividade inerente ao próprio exercício da linguagem". [1]
Assim, temos que se a linguagem é a possibilidade da subjectividade, o discurso provoca a emergência da subjectividade. É assim porque a linguagem comporta as formas linguísticas necessárias à expressão, ao passo que o discurso consiste de instâncias discretas, permitindo então a emergência dessa subjectividade: as formas vazias propostas pela linguagem são apropriadas por cada locutor no exercício do seu discurso que as refere á sua pessoa - define-se assim como um eu e ao seu parceiro como um tu.

"A instalação da 'subjectividade' na linguagem cria na linguagem e, acreditamos, igualmente fora da linguagem, a categoria da pessoa". [1]
Podemos ainda verificar a influência da subjectividade na organização das formas ou na relação de significação. Tomando como exemplo a mudança da forma verbal ['eu como, tu comes, ele come'] esta aparenta não existir uma mudança de sentido. Existe em comum e constante o facto de que a forma verbal apresenta uma descrição de uma acção atribuída, de forma idêntica, a eu, tu e ele. Existem, no entanto, alguns verbos que escapam a essa permanência, denotando disposições ou operações mentais.

Ao dizer "Eu sofro", descrevo o meu estado presente. Dizendo "Sinto que o tempo vai mudar", estarei a descrever uma impressão que me afecta. Se disser "Creio que o tempo vai mudar", a operação de pensamento não é a mesma que o objecto enunciado - converto numa enunciação subjectiva um facto, isto é, "o tempo vai mudar", que é a verdadeira proposição, o que equivale a uma afirmação mitigada.

Verbos como "creio", "suponho", "julgo", são frequentemente seguidos de que + uma proposição: esta é o verdadeiro enunciado, não a forma pessoal que a governa. Mas é essa forma pessoal que lhe confere a subjectividade, dá à asserção que se segue o contexto subjectivo que caracteriza a atitude do locutor em relação ao enunciado que profere. Esta manifestação de subjectividade só tem expressão na primeira pessoa. Estes verbos caracterizam-se pelo facto de darem sentido a um acto individual de alcance social. Não fazem sentido se conjugados na terceira pessoa - esta é a forma do paradigma verbal que remete para uma "não pessoa", referindo-se a um objecto colocado fora da alocução, perdendo o grau de subjectividade. Veja-se "Eu juro" e "Ele jura". O ele caracteriza-se pela oposição ao eu do locutor, formando-se numa não-pessoa. "Eu juro" coloca sobre o locutor a realidade de um juramento. A enunciação em si é um cumprimento - "jurar" consiste precisamente na enunciação "Eu juro" pela qual o ego está preso.
Por aqui se vê que o mesmo verbo, consoante seja assumido por um sijeito ou seja colocado "fora da pessoa", adquire um valor diferente. A própria instância de discurso que contém o verbo representa o acto fundamentando o sujeito - o acto cumpre-se pela instância de enunciação do seu nome [jurar] e o sujeito é apresentado pela instância de enunciação do seu indicador [eu].

"Muitas noções na linguística, e talvez mesmo na psicologia, aparecerão sob uma luz diferente se as restabelecermos no quadro do discurso, que é a língua enquanto assumida pelo Homem que fala, e sob a condição de intersubjectividade, única que torna possível a comunicação linguística.[1]



[1] Émile Benveniste, Problemas de Línguística Geral, S. Paulo, Companhia Editora Nacional, 1976.

CJT - Pragmática da Comunicação [I]

[a partir da leitura de Paula Ramalho Almeida com abordagem a diversos autores]

LINGUAGEM E [INTER]SUBJECTIVIDADE

"a linguagem ensina a própria definição do homem"
Émile Benveniste

Subjectividade
  • Capacidade do locutor para se propor como sujeito
  • Unidade psíquica que transcende a totalidade das experiências vividas, que reúne e que assegura a permanência da consciência
  • É ego que diz ego
  • Consciência de si mesmo

[Wiki] A Subjectividade é entendida como o espaço de encontro do indivíduo com o mundo social, resultando tanto em marcas singulares na formação do indivíduo quanto na construção de crenças e valores compartilhados na dimensão cultural e que vão constituir a experiência histórica e colectiva dos grupos e populações. A psicologia social utiliza frequentemente esse conceito de subjectividade e seus derivados como formação da subjectividade ou subjectivação.


A subjectividade constitui-se num espaço relacional, aonde a insistência dos modos de percepção irá instaurar a realidade.

  • Consciência de si mesmo: Só é possível por contraste
  • Condição de diálogo: Apenas dizemos eu quando nos dirigimos a um tu

Na linguagem, a polaridade das pessoas é fundamental

  • Esta polaridade apenas existe na linguagem
  • Podemos descrever esta polaridade como uma dialética e não dualidade ou antinomia
  • Consequência: PRAGMÁTICA

[Wiki] Pragmática é o ramo da Linguística que visa captar a discrepância entre o significado proposicional recuperável pela semântica composicional de um enunciado e o significado visado por um falante numa dada enunciação. Estuda os significados linguísticos determinados não exclusivamente pela semântica proposicional ou frásica, mas dedutível de condições dependentes do contexto extra-linguístico: discursivo, situacional, etc.

Coerência Pragmática - Quando um texto tem que seguir uma linha de sentido, ou seja, uma sequência de actos. Não é possível o locutor dar uma ordem e fazer um pedido no mesmo acto de fala. Quando estas condições são ignoradas, constituem incoerência pragmática.

A linguagem é de tal forma marcada pela subjectividade que nos perguntamos se a subjectividade poderia existir sem a linguagem. Uma língua sem expressão de pessoa [pronomes pessoais] é inconcebível.

Os pronomes não remetem nem para um conceito, nem para um indivíduo. O eu não domina nenhuma entidade lexical.

A que se refere, então, eu?

O eu refere-se a algo muito singular: ao acto de discurso no qual é pronunciado e designa o locutor desse acto.

Portanto, ao contrário dos outros elementos linguísticos,

  • O eu apenas pode ser identificado dentro do acto de fala
  • É pelo discurso, pelo exercício da língua, que o sujeito se constitui como tal - não existe subjectividade sem linguagem
  • Pela forma como é organizada a linguagem, qualquer locutor pode apropriar-se da língua toda designando-se como eu.

[Wiki] A teoria dos actos de fala teve o seu início com os trabalhos do filósofo inglês John Langshaw Austin (1911-1960) e foi levada adiante por John Roger Searle (1932-) e, de certa maneira, por Jacques Derrida (1930-2004). Austin faz parte da escola de filosofia analítica de Oxford, cuja fundação é atribuída a Gilbert Ryle, mais especificamente ao seu texto Sistematic Misleading Expressions, e o factor que caracteriza os filósofos desta escola é a análise minuciosa da linguagem, na verdade da linguagem ordinária, ou seja, sob uma interpretação literal. Isto diferencia-os, por exemplo, dos estudiosos do Círculo de Viena, cujos estudos sobre a linguagem se limitavam àquela usada pela ciência.
A
filosofia preocupava-se, tratando-se de linguagem, somente com os enunciados descritivos, isto é, aqueles que descrevem estados de coisas no mundo. São estes enunciados que Frege, Russell, os pensadores do Círculo de Viena e outros estudaram exaustivamente, até o segundo trabalho principal de Wittgenstein demonstrar que a linguagem não se limita a estes enunciados e nem pode ser reduzida ao próprio código linguístico; antes, a linguagem também depende fortemente de convenções sociais de várias ordens. Este trabalho de Wittgenstein lançou a noção de “jogos de linguagem”, que são as configurações necessárias para que um enunciado seja interpretado da maneira pela qual o seu enunciador pretende que ele seja. Este “segundo” Wittgenstein, apesar de carecer sobremaneira de uma sistematização, tem, no entanto, como grande mérito abrir estas questões para que outros filósofos as tratassem de uma maneira mais sistematizada e coesa, passando agora o sentido de um enunciado a ser mais relacionado do que nunca com o uso que se faz dele numa determinada situação.
Austin trabalhou nesta perspectiva e as suas teses encontram-se, principalmente, nos textos OtherMinds (
1946), Word and Deads e How do to Things with Words (publicadopostumamente em 1962) e elas versam sobre os usos da linguagem, principalmente sobre a interpretação de questões, exclamações, comandos, ou seja, sobre enunciados que não são unicamente descritivos.

A par do tu e do eu:

  • demosntrativos
  • advérbios
  • adjectivos

como indicadores da deixis, ou deícticos, que organizam as relações espaciais e temporais em torno do sujeito.

  • Isto, aqui, agora
  • Isso, ontem, no ano passado, amanhã

Estas classes têm em comum definirem-se apenas com relação à instância do discurso na qual são produzidos, sob dependência do eu; Mesmo nos verbos que indicam passado, a referência será sempre o presente, isto é, o tempo em que se fala.

Se a linguagem é a possibilidade da subjectividade, o discurso provoca a emergência da subjectividade:

  • "Eu sofro" - Descrição do meu estado presente
  • "Sinto que o tempo vai mudar" - Descrição de uma impressão que me afecta
  • "Creio que o tempo vai mudar" - Afirmação mitigada: converto numa enunciação subjectiva um facto, isto é, "o tempo vai mudar", que é a verdadeira proposição

[Wiki] De acordo uma das leituras possíveis, discurso é a prática social de produção de textos. Isto significa que todo discurso é uma construção social, não individual, e que só pode ser analisado considerando seu contexto histórico-social, suas condições de produção; significa ainda que o discurso reflecte uma visão do mundo determinada, necessariamente, vinculada à do(s) seu(s) autor(es) e à sociedade em que vive(m).
Texto, por sua vez, é o produto da actividade discursiva, o objecto
empírico de análise do discurso; é a construção sobre a qual se debruça o analista paraprocurar, à sua superfície, as marcas que guiam a investigação científica. É necessário porém salientar, que o objecto da Análise do Discurso é o Discurso.

Contexto é a situação histórico-social de um texto, envolvendo não somente as instituições humanas, como ainda outros textos que sejam produzidos em volta e com ele se relacionem. Pode dizer-se que o contexto é a moldura de um texto. O contexto envolve elementos tanto da realidade do autor como do receptor — e a análise destes elementos ajuda a determinar o sentido. A interpretação de um texto deve, de imediato, saber que há um autor, um sujeito com determinada identidade social e histórica e, a partir disto, situar o discurso como compartilhando desta identidade.

Uma ordem de discursos é um conjunto ou série de tipos de discursos, definido socialmente (Foucault) ou temporalmente (Fairclough), a partir de uma origem comum. São os discursos produzidos num mesmo contexto de uma instituição ou comunidade, para circulação interna ou externa e que interagem não apenas entre eles, mas também com textos de outras ordens discursivas, (intertextualidade). A sua importância para a Análise do Discurso está em contextualizar os discursos como elementos relacionados em redes sociais e determinados socialmente por regras e rituais, bem como modificáveis na medida em que lidam permanentemente com outros textos que chegam ao emissor e o influenciam na produção dos seus próprios discursos.

O universo de concorrências ou mercado simbólico é o espaço de interacção discursiva no qual discursos de diferentes emissores se dirigem ao mesmo público receptor: por exemplo, diferentes marcas de cerveja apelando ao mesmo segmento de mercado (homens entre 20-45 anos, classes A/B, solteiros). A concorrência ocorre quando cada um destes discursos tenta "ganhar" o receptor, "anulando" os demais ou desarticulando os seus argumentos ou credibilidade em seu próprio favor. O modo de interpelar o receptor definirá as características do seu discurso (posicionamento competitivo) e determinará o seu êxito ou insucesso.

A contextualização de um discurso é dificultada por, fundamentalmente, três items: a relação de causalidade entre características de um texto e a sociedade não é entre dois elementos distintos A -> B, um causa e outro consequência, mas é dialética, ou seja, a continência de um pelo outro é uma relação contraditória. Pelo mesmo raciocínio, os discursos (esfera da superestrutura) não sofrem apenas os determinantes económicos (esfera da infraestrutura), mas também culturais, sexuais, etários etc..
O não-imediatismo da passagem da análise
semiológica para a interpretação semântica, ou seja: não basta demarcar e classificar as palavras para imediatamente interpretar os seus significados. É preciso considerar o máximo possível de variáveis presentes no contexto.

A teoria do Discurso Estético parte do princípio de que, se a imagem também é um texto, e há discurso das imagens, não apenas semântico, deve haver discurso estético, sintático, perceptível não logicamente, mas esteticamente.
Teoricamente, há
estética em tudo. Todas as formas existentes são passíveis de percepção estética -- logo, de apreciação e informação. Por isso, o que falamos pode ser chamado de um “discurso estético” ou discurso das imagens, que se dê pela percepção estética, não-lógica, de determinados valores ideológicos inculcados e identificáveis por meio das suas marcas de enunciação e interpelação. No caso das imagens, tais marcas podem ser encontradas, entre outros modos, por meio da Análise da Imagem e das leis da Teoria da Percepção.
É possível, por exemplo, analisar linhas de formas, texturas,
cores, nas imagens produzidas por uma sociedade, uma instituição ou um período e, a partir destas marcas, encontrar formas de interpelação (posicionamento e poder) e valorizações de determinados conceitos que são fundamentalmente ideológicos.
A idéia do discurso como “transmissor” de
ideologia é aplicada às formas de Arte e de Comunicação Visual mais recentemente, em virtude da evolução das relações de produção, que vêm distanciando quem cria de quem produz.
Na história da feitura de artefatos (fabricação de objectos e obras de arte), a produção deslocou-se da união designer/produtor para a gradual separação entre esses dois agentes. Antigamente, um artesão era ao mesmo tempo o projectista e o fabricante de um objecto ou uma obra. Já no contexto da produção industrial, o profissional que aplica valores estéticos aos objectos que serão produzidos (designer) não é o mesmo que os executa. Assim, indaga-se se é ele quem cria e determina esses valores estéticos, ou se eles já lhe são passados, pelo ambiente cultural, ideológico ou económico.
Por exemplo: se os
cartazistas russos do período revolucionário (1917-1922) utilizavam praticamente só as cores preta e vermelha, isto era uma condição imposta pela economia de guerra, que não dispunha de variedade de tintas, ou era reflexo de um discurso ideológico extremista que defendia altos contrastes e opostos bem definidos, desprestigiando nuances e meios-termos?
Ou, por outro lado, o estilo
Barroco da Contra-Reforma católica dá ideia de riqueza e opulência, fazendo frente à austeridade sombria da estética protestante, que pregava a não representação (abolição do culto às imagens de santos etc.) e a ascese.
Embora não seja fácil definir qual é a relação causa-e-consequência do fenómeno, o certo é que os valores estéticos impregnados num trabalho e o ambiente ideológico estão intrinsecamente ligados, produzindo discursos muito mais do que verbais. Assim, é possível encontrar discursos estéticos nas instituições (aparelhos ideológicos do Estado, segundo
Althusser, ou aparelhos de hegemonia, segundo Gramsci), dentro do que se considera "cultura", e pode-se considerar a actividade de comunicação visual como produtora de estética.
O que se propõe como Discurso Estético para as imagens vale igualmente para a
Música, a Poesia, a Literatura e outras manifestações estéticas.

A proposta de um novo objecto chamado "discurso" surgiu com Michel Pêcheux na França, em sua tese "Analyse Automatique du Discours" em 1969. Na época ele trabalhava num Laboratório de Psicologia Social e sua ideia era a de produzir um espaço de reflexão que colocasse em questão a prática elitizada e isolada das Ciências Humanas da época. Para tanto, ele sugere que as ciências se confrontem, particularmente a história, a psicanálise e a linguística. Este espaço de discussão e compreensão é chamado entremeio, e o objecto que é aí estudado é o "discurso". Assim, é no entremeio das disciplinas que podemos propor a reflexão discursiva.
Contemporaneo a Pêcheux está Michel Foucault, também na França, e também incomodado por questões semelhantes, mas propondo uma outra via de compreensão, a que ele também chama "discurso", por exemplo em "Archeologie du Savoir". O discurso de Pêcheux não é o discurso de Foucault. E se pensarmos na tradição anglofona a distância aumenta, porque o discurso de Norman Fairclough também não se aproxima das questões francesas. O que temos são vias, diferentes possibilidades de compreensão de um problema posto diferentemente por cada autor. O que significa que não há uma "teoria" mais aceite actualmente, mas sim caminhos teóricos que respondem e correspondem em parte às necessidades de reflexão que se apresentam.

CJT - O Ensino da História

História


ALGURES ENTRE HEGEL E POPPER

A necessidade de uma cultura histórica advém da possibilidade de serem estabelecidos parâmetros de conduta social que vão sendo aprendidos pela análise do passado. O estudo da história, se bem que impregnado de algum romantismo dado pelo carácter de um ou outro autor, é essencial à formação do Homem. A memória serve-nos de bitola para podermos determinar objectivos e estratégias, à falta de uma outra ferramenta que se possa considerar exacta para tal.
Não podemos, ainda assim, considerar a História como a forma preferencial de determinação do curso da Humanidade. O tempo anda para a frente e, embora o presente histórico seja ainda indeterminado e o seu passado seja um dado adquirido, estes dois não podem, não devem tolher o curso dos tempos, mesmo correndo alguns riscos. Sabemos que em determinada ocasião aconteceu assim, neste contexto. Não sabemos com toda a certeza se tal acontecimento será cíclico, se voltará a repetir-se, mesmo em contextos semelhantes. O tempo prega-nos partidas e, como digo, é inexorável.

Não considero, no entanto, que o estudo da História seja algo vago. É um estudo que se quer objectivo e, embora limitado pela quantidade de informação que se consegue obter e mesmo pela interpretação diferente de cada um dos autores em relação a determinado objecto, oferece-nos uma real oportunidade de crescimento intelectual e um acumular de informações acerca da ancestralidade que nos permite, sem sombra de dúvidas, que a cada momento possamos ajuizar acerca de uma ou outra opção a tomar e, importante, exercer julgamento sobre determinados períodos, pessoas, actos, que pareceram ser os mais ou menos correctos num presente histórico de outros e que, bem vistas as coisas, acabam por se tornar noutra coisa qualquer.

A REALIDADE PÓS-INDUSTRIAL

A época capitalista e globalizante que vivemos trouxe-nos a necessidade de vivermos num mundo múltiplo de referências policulturais. Fragmentou-se o tempo e a realidade em mínimas parcelas, a Comunicação e as Indústrias Culturais ganham importância crescente nessas fragmentações. A História passa assim a ser vista como um contraponto à incapacidade da explicação científica e reveste-se, por assim dizer, de alguns laivos da explicação hegeliana, embora imbuída de alguns traços positivistas conferidos pela pós-modernidade.

Sabemos que tal não é mais que uma falácia. A História presente é cada vez mais deturpada pela hiperinformação que tenta a todo o custo fornecer análises em "tempo real" de situações que, pela sua complexidade, necessitariam de uma geração para amadurecer o juízo e a interpretação da realidade analisada. As recentes técnicas de informação e comunicação permitem o acesso constante a dados e referências das mais variadas vertentes deixando o estudo académico depauperado.

Não se aprende história nas escolas, pelo menos da forma como esta deveria ser ensinada: de uma forma com tempo, com espaço de aprendizagem, com alma. A História que se ensina nas escolas, especialmente no ensino básico e secundário, é apenas um resumo apressado de "coisas que aconteceram aos velhos". Não ensina os estudantes a tornarem-se eles Velhos de Conhecimento. Não os ensina sequer o supremo gosto de tentarem encontrar dados, de os cruzar e interpretar e, de igual modo, de os comparar com o presente histórico e extrapolá-los para um futuro que é deles.

Remete-se assim o ensino da História para os vídeos e filmes, para Códigos e Códices, para "300" e outros que tais. A História Pop em toda a sua plenitude, a batalha de Levante pintada por Wharol.

Talvez seja por isso que Salazar seja uma figura de moda, talvez seja por isso que Hitler tenha tantos posters vendidos, talvez seja por isso que temos políticos que não têm problemas em dizer que a Coreia do Norte dificilmente não será uma democracia ou que George Bush é um baluarte desta.

Talvez seja por isso que ouçamos e acreditemos, nem que logo de seguida nos digam o contrário para acreditarmos também.

E é por isso que compreendo o excelente post do Paulo Guinote, "O Fim da Memória e o Desejo do Homem Novo", sob o mote de Georges Steiner, "Hoje, a nossa escolaridade é de amnésia amplificada".

IAM - Pragmática da Comunicação - Conceito

Adriano Duarte Rodigues in "(Linguística e Comunicação) A Partitura Invisível - Para uma Abordagem Interactiva da Linguagem" (Lisboa, Edições Colibri, 2005) definiu o conceito de Pragmática da Comunicação.
Não querendo ser uma especialista (que não o sou, sou apenas uma estudante do tema, no âmbito da Comunicação Empresarial) resolvi fazer um pequeno resumo do texto deste autor, que, na minha modesta opinião, conseguiu definir a Pragmática da Comunicação de forma clara e que pode ajudar a entender este tema.

O termo pragmática é muitas vezes confundido com o termo prática. Ora nada como procurar a origem de uma palavra para conhecermos o seu verdadeiro significado.

De origem grega, o termo pragmática surgiu do substantivo "he pragma" (negócio, assunto), tem como significado "cuidado, o trabalho ou aplicação que se põe na confecção ou no fabrico de alguma coisa".

Tendo sido aplicado em várias áreas (desde o direito á filosofia, passando pela matemática), o termo pragmática, a partir de 1851, passou a denominar uma corrente filosófica norte-americana, encabeçada por William James e Charles S. Pierce, que defendia que "o valor prático de uma proposição é considerado como o critério da sua verdade ou, pelo menos, da sua aceitabilidade".

Peirce identificou três dimensões de signo, dimensões essas que Charles Morris veio a designar de:
  • Dimensão Semântica - relação dos signos com os objectos que representam
  • Dimensão Sintáctica - relação dos signos entre si
  • Dimensão Pragmática - relação entre o signo e os seus interpretantes

Segundo Adriano Duarte Rodrigues não é bastante um enunciado ser percebido linguisticamente, é necessário que tanto o locutor (que enuncia o enunciado) e o alocutário (quem descodifica o enunciado) estejam "dentro" do mesmo contexto, ou seja, por exemplo se alguém enunciar "ele bateu à porta", significa que um indivíduo do sexo masculino, que não é nem o locutor nem o alocutário, bateu à porta. Mas, este enunciado continuará indeterminado, uma vez que não podemos atribuir um nome próprio à pessoa que bateu à porta e de quem se fala, nem sabemos o porquê do locutor ter proferido o enunciado, isto é, não sabemos se estava a responder a uma pergunta do alocutário, ou se estava a constatar um facto, nem qual é o momento e o espaço em que o enunciado foi proferido. Podemos então dizer que, semânticamente, o enunciado tem sempre o mesmo valor, mas pragmaticamente terá sentidos diferentes.

Um enunciado adquire sentidos diferentes consoante as pessoas, situações, lugares, momentos e das razões que levaram à sua enunciação. Este estudo cabe á Dimensão Pragmática, que o vai inserir numa situação interlocutiva.

Ao determinarmos a significação de um enunciado, está-se a definir o seu valor semântico, é-se capaz de compreender o que exprime numa língua comum aos intervenientes. No entanto, para entender qual o seu sentido, as razões porque foi enunciado é necessário ligar o enunciado a uma situação interlocutiva concreta e única. Esta possibilidade torna o discurso relevante, plausível e razoável e, são precisamente estas três características (Relevância, Plausibilidade e Razoabilidade) que dão sentido a qualquer enunciado.

Podemos então afirmar que a "pragmática compreende o estudo das relações de referência que a linguagem estabelece com o mundo extra-linguístico, com as situações e os contextos enunciativos, e das maneiras como estas relações se estabelecem."

CJT - O Novo Site Do ISCAP

Este artigo pretende criticar construtivamente a nova página do ISCAP. Não é intenção estar por aqui a "armar-me aos cucos", a intenção é apenas a de analisar as coisas conforme eslas estão na actualidade: muito melhores e com oportunidade de melhorar ainda mais.
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O ISCAP renovou o site - e fez muito bem. O antigo estava gasto, era lúgrube, tinha informação confusa e o acesso a esta era difícil.
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O novo site está bem melhor. Mais funcional, com uma leitura fácil e a fazer os olhos circularem pela pela página, aparenta levar o rato a clicar nas mais diversas ligações. Tem um desenho sóbrio mas aprazível e não exagera nos flashes e quadros dinâmicos.
No entanto, creio poderem ainda acabar algumas obras e aprimorar alguns acabamentos.
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Uma das primeira coisas a fazer, a meu ver, seria a redistribuição da página: a coluna da direita, com menos informação, está desproporcionalmente mais larga em relação à central, com mais informação.
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Uma das novidades que poderá ser um dos mais valiosos contributos para a obtenção de informação actualizada por parte dos Alunos e demais públicos é o formulário de subscrição de e-mail. E, reparem, não digo "a possibilidade de subscrição de notícias por e-mail". Falo apenas do formulário que, por agora, é a única coisa que consegui conhecer. Já o preenchi há uns dias [na data da "inauguração" do novo site] e, até agora, ou não houveram novidades ou aquilo não funciona.
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Ainda na página inicial, o site oferece-nos uma agenda, ou o resumo desta, que nos informa das datas e eventos mais recentes. E por recentes entenda-se os futuros e os passados. Nada contra isto mas, se é certo que podemos ficar a saber o que se irá passar no Infocomm 2007, também é certo que ficamos sem saber o que se passou na Semana Internacional do ISCAP pois, em vez de o site apresentar uma reportagem acerca do que se passou, apresenta unicamente o programa... passado. Mais uma curiosidade acerca deste módulo da página principal é o facto de os eventos se apresentarem em sequência cronológica descendente, quando deveria acontecer o inverso.
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Entretanto, os principais serviços OnLine dedicados aos utentes do Instituto estão agora bem localizados e identificados, não sendo necessário recorrer à antiga barra lateral que era mais um engarrafamento de informação que uma ferramenta de acesso. E ainda por cima, este módulo ficou bonito. Creio que é mesmo a primeira coisa para onde olhamos em toda a página. Ficou bem onde está, mesmo ao lado das notícias.
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O bloco central do site está muito bem estruturado. Apresenta uma imagem aleatória que muda a cada pageload [pessoalmente, preferiria que esta fosse mudando em forma de apresentação enquanto a página está carregada] e a barra de links no topo deste módulo faz a vista percorrer a página em "F".
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Por sua vez, a barra de links vai dar a páginas com diferentes tipos de informação mas com uma característica comum: nenhuma delas possui um link de "forward", "go to" ou "vá para". Somos obrigados a subir o rato uma vez mais para a barra de links, o que, como todos sabemos, é uma trabalheira desgraçada. Como nota curiosa podemos verificar que as páginas acedidas a partir dos títulos do módulo "Em Destaque", apresentam o link "Voltar" mas não apresentam o link "Seguir para o próximo destaque"... ou coisa assim. Isto é, se quisermos ler o próximo, temos que voltar à página inicial.
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O cabeçalho está engraçado e não há nada a apontar.
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O módulo "Notícias" funciona à semelhança do "Agenda" com excepção de não existir um critério cronológico, o que também não faz falta alguma. Por sua vez, a barra lateral está bastante simplificada na sua utilização e o acesso aos variados módulos que a compõe é completamente diferente do que se podia esperar ao aceder ao antigo site. Esta é uma das melhores modificações que este site teve. Apenas um reparo: a utilização de siglas e acrónimos não é aconselhável num site que se espera aberto aos diversos públicos e não só ao público interno. Coisas como "I&D no ISCAP" não significam nada. Ainda por cima, acedendo a essa página, encontramos por lá títulos como "CEI", CEISE/STI", "PAOL", etc. Poderão existir utentes do ISCAP que estejam familiarizados com essas siglas [?] mas decerto que outros não estarão e, num site, coisa que não se compreende é rejeitada logo à partida.
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Por último, alguns pequenos detalhes: a existência de link directo para o e-mail é coisa boa para spammers. A inclusão de um formulário de e-mail seria o ideal, especialmente se este puder trabalhar com filtros.
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Uma outra coisa boa seria a inclusão de um Feed RSS ou Atom. Para pessoas que não têm muito tempo a perder e para outras que, tendo um blog como este, gostam de ter as últimas actualizações dos seus sites preferidos ali mesmo, expostas na barra lateral.
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Por fim, uma nota que considero de muita importância: o ISCAP é feito pelos seus Docentes, Pessoal e Alunos. Não se compreende pois que a página da Associação de Estudantes esteja em domínio próprio. Suponho que seria muito mais engraçado ver a página no domínio iscap.ipp.pt e as suas novidades na página principal.
Isto, claro está, para nem falar nos blogs de cursos...