CJT - A Importância De Uma Pequena Conversa

Não é à toa que se conversa. Talvez a maior parte das conversas que temos sirvam, efectivamente, para transmitir uma mensagem. Digo isto porque muitas das que tenho fazem-me duvidar da efectividade de transmissão do texto. Sei que isto é uma "heresia" em termos comunicativos mas não consigo deixar de o pensar. Ainda hoje tive uma graaaaande conversa que resultou em menos que nada. Creio que foi o que se pode chamar uma conversa de surdos. Ou talvez se trate mesmo do que estivemos a discutir, relacionado com a pragmática conversacional - aquela coisa em torno da metalinguística, aquilo de "sintonizar" as cabeças e as sentenças. Pensando bem, talvez os teóricos tenham alguma razão.

Adiante. Temos conversado acerca da comunicação e, dentro desta, de canais ascendentes, descendentes, temos andado a ver do que se trata, afinal, de enviar textos dentro de uma empresa, para o nosso público interno. Falamos de conceitos diversos, afloramos o endomarketing e, na realidade, tudo não é senão uma simples coisa: a necessidade de nos fazermos entender.

Mas é fazermo-nos entender que não é tão simples como isso. Quantas vezes dizemos que "Fulano não compreendeu o que eu lhe disse"? Na minha opinião, essa pergunta, por si só, é falaciosa. Tenho por norma nunca perguntar "percebeste o que te disse?", mas sim "Fiz-me entender?". É diferente.

É que, vendo bem as coisas, se alguém não compreendeu o que eu lhe transmiti, é por um único motivo: porque eu não expliquei bem. Podemos mesmo estar a tentar explicar algo a uma criança ou a alguém completamente ignorante, até mesmo a um indivíduo com algum tipo de anomalia psíquica. A minha opinião é que, uma vez mais, se ele não entendeu é porque eu não me fiz entender. Daí a famosa expressão "Explica-me isso como se eu fosse muito burra" que andou a circular numa campanha publicitária.

As empresas têm a sua visão, a sua missão, a sua estratégia. Fazem o seu planeamento. Tentam transmitir todos esses conteúdos ao trabalhador por meio das mais diversas ferramentas. No entanto, continuamos a verificar falhas de interpretação e a consequentes quebras de produção, volume de vendas, etc. Tudo porque, aparentemente, "o pessoal não conseguiu interiorizar" as expectativas.

Neste sentido, a comunicação é quase um valor em si. É incontornável na criação de valor para a organização onde se desenvolve e que desenvolve. É imprescindível para a consecussão de resultados óptimos para a organização e para os seus trabalhadores.

Lamentavelmente, está ainda longe de ser considerada como o deve ser.

A realidade é que grande parte das empresas estão ainda muito compartimentadas e operam ainda no modelo de "dois pisos". Esta situação observa-se com especial incidência no sector produtivo onde existem três classes: a dos "Senhores Doutores", a dos "Senhores Engenheiros", a dos "Empregados do Escritório" e, finalmente, uma inevitável quarta, a do "Operariado" ou "Pessoal".

Neste contexto cultural, a comunicação é barrada por um sem número de factores e, muitas das vezes, os objectivos da organização não chegam da melhor forma ao pessoal mais subalterno. Daí a existirem clivagens, por vezes fortes, entre a visão da organização por parte de uns e de outros, é um instante.

Quando falamos do planeamento de uma qualquer coisa, digamos de uma escada, o que é habitual é que exista um desenho original dessa escada, feito pelo arquitecto. Este, por sua vez, há-de o entregar a alguém, provavelmente um engenheiro, para que proceda à sua execução. Cabe a este último o estudo dos métodos e processos a colocar em prática para que a tarefa possa ser concluída com um máximo de eficiência pelo que deve considerar todas as envolventes relacionadas com logística, recursos humanos, escolha de materiais e ferramentas etc.

Este estádio do processo deve-se ao facto de ter existido uma conversa entre o arquitecto e o engenheiro que lhe passou o desenho para a mão, explicando-lhe de forma objectiva quais as suas expectativas em relação à empreitada.

O engenheiro, tendo interiorizado esta expectativa e tendo já cuidado de todos os trabalhos prévios à construção, dá o plano desta obra ao seu melhor profissional, ao que crê ser o mais habilitado, mais perfeito e eficiente. Aparentemente, nada mais há a fazer senão esperar que o trabalho da escada se complete e que o profissionalismo do funcionário, aliado à boa capacidade de gestão do engenheiro dêem frutos, podendo este passar a circular pelo resto da obra que, por acaso, até tem trabalhos muito mais complexos que este.

No final do dia o funcionário vai ter com o engenheiro e, sorridente, diz-lhe que o trabalho está pronto e que ficou muito bom. Confessa-lhe até que foi dos melhores que fez até hoje. O engenheiro, contente e confiante, pergunta-lhe ainda assim se seguiu e conseguiu cumprir o plano que lhe tinha entregue, a cópia do desenho do arquitecto. A resposta é entusiástica. Que sim, que tudo ficou "tal e qual", que lhe deu um pouco de trabalho mas que está "um brinco".


Bom... não se pode dizer que o funcionário não tenha feito um bom trabalho. Aparentemente, fê-lo até bem demais, cumpriu e superou a expectativas que nele tinham depositado: as da reprodução fiel do plano do desenho original, símbolo habitual do seu perfeccionismo. De fora ficaram alguns símbolos que, no catálogo de convenções do operário, tinham significações diferentes das do engenheiro e do arquitecto.


Compreendeu mal? Não creio. Explicaram-lhe mal, não se fizeram entender? Tenho a certeza que sim.


E, no fim, isto não foi nada que uma pequena conversa não pudesse ter evitado...

Paulo Querido - A Internet Como Forma de Interacção e Auscultação O Mercado

Paulo Querido é jornalista desde 1981, tendo sido agraciado com vários prémios [Prémio Jornalismo Raul Junqueiro APDC/Ericsson, Prémio Algarve/Imprensa, Prémio Gandula] e é colaborador permanente no Expresso após passagens pelo Gazeta dos Desportos, Diário Popular, Rádio Algarve, Correio Informático e Recortes.
A par da actividade jornalística, tem desenvolvido actividades como consultor de sistemas informáticos editoriais. Tem diversas publicações em livro: “Amizades Virtuais, Paixões Reais, a Sedução pela Escrita”, Co-autor do livro “Blogs”, Autor do livro “Homo Conexus – O Que Nos Acontece Depois De Nos Ligarmos à Internet”, Co-autor da obra “O Futuro da Internet”, Co-autor do livro “O Fundamental do CorelDraw”. Tem sido orador e apresentador nos mais diversos eventos relacionados com informática e Internet.
Cria a primeira rede editorial de blogues [http://tubaraoesquilo.pt/]. Membro do Grupo de Alto Nível da Associação para a Promoção e Desesenvolvimento da Sociedade da Informação, Formador na área do jornalismo online ao serviço do Observatório de Imprensa, Fundador do projecto weblog.com.pt, web-activista, participação em diversos projectos; Faz primeira entrevista transatlântica utilizando a Internet (João Cabeçadas, circum-navegador, para o Expresso) (1989); Editor do primeiro suplemento regular de informática da Imprensa portuguesa, Bit-bit (Diário Popular), em 1984/85. Fundador e director da inovadora BBS “A Rede”, onde lançou a primeira edição digital europeia na Internet de um orgão de comunicação social (o semanário Blitz). Responsável pelo primeiro título português com edição simultânea no papel e na Internet (o jornal Correio Informático/Computerworld, de que era Chefe de Redacção). Fundador da primeira empresa gráfica totalmente assente nas novas tecnologias (Cibergráfica). Mantém o blog "Mas Certamente Que Sim!".
Para o Paulo, o nosso abraço e agradecimentos.
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Sinteticamente, as ferramentas de comunicação proporcionadas pela Internet servem às organizações em três áreas:

  • comunicação interna
  • comunicação externa
  • avaliação passiva do comportamento dos seus públicos-alvo

Na primeira área as vantagens são evidentes e brutais. A Internet permite reduzir drasticamente os custos de comunicação e oferece soluções para todo o tipo de trabalho, com particular relevo para o trabalho colaborativo, ou grupal. Dos blogues aos wikis ao youtube passando pelas aplicações de escritório online.
Uma organização que use inteligentemente estas ferramentas dá um passo em frente na comunicação e poupa despesas. Por inteligente, aqui, entendo dar aos seus membros (funcionários, colaboradores, etc) a autonomia e o estímulo para descobrirem por si próprios os caminhos da comunicação reticular.

Em termos de comunicação com o exterior é preciso muito mais cuidado e tendo a ser um pouco conservador. Não concordo que toda a qualquer organização se sinta compelida a criar blogues, foruns ou espaços para "comunicar com o cliente". Essa comunicação é eventualmente muito perigosa. Na web as audiências têm comportamentos peculiares e as más imagens são fáceis de construir e difíceis de apagar. Tudo o que soe a falso é imediatamente detectado e vira-se contra o emissor. Mais vale ter um blogue não oficial, dirigido por alguém da organização a quem é dada muita latitude, inclusivé para criticar, do que um blogue formal -- que será visto como mera correia panfletária e como tal mais ou menos ignorado.
As excepções a esta espécie de regra são escassas, enquanto os exemplos que a confirmam abundam.

Esta segunda área tem sido a mais badalada pelos media e um pouco por toda a sociedade, mas não a considero a mais importante.

Já a terceira área tem sido muito negligenciada, sobretudo em Portugal.
A web é um espaço laboratorial incrível e um autêntico ninho de tendências sociais. Avaliar os comportamentos de forma passiva -- quer seguindo grupos que correspondam mais ou menos ao alvo da organização, quer criando tais grupos para os estudar -- comporta poucos riscos e tem grandes benefícios. Seja a avaliar o nosso nicho, seja a avaliar a concorrência.

Rich Brooks - Six Blogging Myths That Are Holding You Back

Rich Brooks é presidente da Life New Media, uma companhia de Internet Marketing e Web Design. Neste pequeno artigo demonstra-nos alguns dos mitos que continuam a impedir os gestores de apostarem nesta ferramenta, o blog. A ler, do mesmo autor, os artigos "The 11 Biggest Mistakes Small Business Bloggers Make", "10 Questions To Ask Befor Setting Up A Web Site" e "The Secret to a Web Site That Sells". Como curiosidade, hão-de reparar que o nome do site da Life New Media ostenta o título "You Don't Need A Web Site"...

6 Blogging Myths that are holding you back
[imagem: autor desconhecido]
By the hammer of Thor there's a lot of blogging myths out there; myths that keep you from generating more online leads and building lasting relationships with clients.
The problem with these myths is that if they're not challenged they turn into conventional wisdom. If you've been looking to drive more traffic to your Web site and improve communications with customers, you owe it to yourself to give a business blog a try.
Below are some of the hurdles--exaggerated or imagined--I've heard business owners use to avoid starting a blog, and real-world experience to debunk these myths.

1) My customers don't read blogs. I hear this all too often by business owners who don't completely understand what a blog is. Now, perhaps your customers don't subscribe to any blogs, or they don't return daily to a favorite blog. However, if they use Google or Yahoo for search, chances are they stumbled upon a search result from a blog. Since blogs often rank high at the search engines, if your customers use the Internet, you can capture their attention with a blog.
2) Blogging is for teenagers to share the minutiae of their lives and what they think of the remaining American Idol contestants. While teens certainly took to blogging quicker than businesses, these days companies of all sizes and shapes have realized the benefits of a business blog. You wouldn't dismiss the telephone as a communication device just because your teenager spends hours each night on it, would you?
3) Blogging is just a fad/This too will pass. Didn't you say the same thing about the Internet back in 1997? Of course no one can predict the future and much of the hype about blogs is just that. However, it's important to realize that blogs are a powerful, easy-to-use communication tool, and communicating with customers and prospects will never go out of style.
Besides, blogs are an effective marketing tool today, so don't worry if in five years you've moved on to your next communication medium. If you've cultivated an active audience, they'll follow you to other distribution channels.
4) Blogging takes up too much time. I run a growing business, sit on the board of MEBSR (Maine Businesses for Social Responsibility), participate in a business-owners group, do a lot of writing and speaking, and carry my share in raising our two daughters. Trust me, I know from being busy.
However, in the past two-and-a-half years of blogging, I've discovered that it's probably the most effective use of my marketing time. Blogging helps establish your expertise, generates loads of search engine leads, and delivers your message through three distribution channels each time you write. (Read more on the three faces of blogs.)
As business owners we have limited time in the day to market our services; blogging provides great return on that investment.
5) Blogging is fraught with dangers, like people leaving negative comments. These days, consumers can vent their frustration with your product or service anywhere on the Web, whether it's a post at their own blog, a review at Epinions.com, or a scathing YouTube video. If I had my choice, I'd rather have that conversation happen where I have home court advantage. How you handle negative feedback can establish your authenticity, and help you win over new converts.
And, if you happen to find yourself with a PR nightmare, you don't have to worry about letting the media tell your side of the story. By using your own blog you have unfettered access to anyone with a connection to the Internet.
People are looking for transparency and authenticity from companies these days, and your blog is the perfect tool to match these needs.
6) My customers don't read blogs. Whoa. Feelings of deja vu. Didn't we respond to this earlier? Oh, you mean that you don't get leads from the Internet? That they only use the Yellow Pages or go on advice from a friend? Well, then your audience is shrinking. The average consumer is much more likely to use the Web to search for a product or service, or at least visit your Web site to learn more about your company.

If you haven't gone after this audience before, you're missing an opportunity of getting in front of a younger audience...your customers and clients of tomorrow.

And trust me, they read blogs.

The truth about blogging is that it's proven an effective marketing tool for a wide range of businesses. You can start a blog on your own through a service like TypePad or by installing a blogging platform like WordPress on your own server. Alternatively, you can hire a Web design firm to design, develop and promote your blog and get you up to speed quickly.
Whatever path is right for you, don't let these myths keep you from giving business blogging a chance.

Habilidades en Salud Mental - Lógica Relacional Humana E Conceitos De Comunicação [II]

Adaptado de "Habilidades en Salud Mental", edição de Março de 2005, por JA Barbado Alonso, JJ Aispiri Diaz, PJ Cañones Garzón, A Fernández Camacho, F Gonçalves Estella, JJ Rodríguez Sendín, I De la Serna de Pedro, JM Solla Camino.
Os links e expressões a bold são da responsabilidade de CJT.




[imagem: Seagram]




DIMENSÃO PRAGMÁTICA DA COMUNICAÇÃO


Por PRAGMÁTICA COMUNICACIONAL entendem-se os efeitos e influências que a comunicação produz na conduta.

O chamado Grupo de Palo Alto foi o pioneiro desta perspectiva ao elaborar uma série de regras ou axiomas.

A IMPOSSIBILIDADE DE NÃO COMUNICAR

Não há nada contrário à conduta. Não existe a não-conduta. Toda a conduta [em situação de interacção, de intercâmbio] é mensagem. Falar ou estar calado, mover-se ou permanecer quieto, têm sempre o valor de mensagem. Na relação interpessoal é impossível não comunicar. Um passageiro de comboio de olhos fechados pode estar a indicar-nos que não lhe falemos; um paciente histérico mostra-nos a discordância entre as suas mensagens verbais e a expressividade do seu corpo, dos seus sintomas corporais; o paciente com inibição catatónica indica-nos a negação à comunicação. Todos os exemplos acima nos indicam uma mesma coisa: apesar do que pretendamos, não podemos evitar comunicar.

OS NÍVEIS: INFORMATIVO E RELACIONAL

O aspecto conteúdo de uma mensagem é o que transmite informação. O aspecto racional faz referência a que tipo de mensagem deve entender-se, refere-se à relação entre os comunicantes. A mensagem "vem cá" dita em tom imperativo ou dita em tom amistoso, embora sendo a mesma informação, mostra dois tipos de relação diferentes: uma de subordinação, a outra de igualdade ou simetria.

OS CANAIS: DIGITAL E ANALÓGICO

O digital refere-se à comunicação verbal e o analógico é constituído pelos gestos, a postura, o tom e a cadência de voz, o ritmo e, em geral, por todo o cinésico. É muito importante considerar a existência de incongruência entre estes dois canais. Por exemplo: uma frase agressiva ["odeio-te"], dita em tom cordial, tem significado diferente se for acompanhada de um componente analógico diferente.

AS INTERACÇÕES: SIMÉTRICA E COMPLEMENTAR

Todas as trocas comunicacionais são simétricas ou complementares, segundo estejam baseadas na igualdade ou na diferença. No primeiro caso, os participantes tendem a igualar a sua conduta recíproca. A um movimento X de A segue-se um movimento X de B. Por exemplo: Escalada, competições desportivas, discussões conjugais... A característica deste tipo de relação é que cada participante tenta impor as suas próprias regras de jogo. No segundo caso há duas posições diferentes: um ocupa uma posição superior ou primária, o outro a inferior ou secundária. Por exemplo: sádico-masoquista, amo-escravo, professor-aluno, médico-paciente... O importante é que nestes casos cada membro aceita de bom grado a posição do outro.

PONTUAÇÃO DA SEQUÊNCIA INTERACTIVA

Uma interacção é uma sequência ininterrupta de comunicação. A pontuação refere-se à forma como esta se organiza, onde começa e onde acaba, quem e o que se interpreta do processo interactivo; é um processo aleatório. Como seres humanos organizamos, pontuamos a complexidade da realidade numa tentativa de apreendê-la, de controlá-la, de domesticar a sorte. Mas esta pontuação é aleatória e consensual. Por exemplo: dia-noite é um processo natural, ininterrupto, circular; no entanto, criamos unidades de tempo [horas, minutos, segundos] e decidomos que o ponto de inflexão de um dia para o outro seja a meia-noite. Nos processos de comunicação humana outro exemplo é uma seta, onde a conduta de um membro se pontua como líder e a dos restante de adeptos. A origem de muitos dos conflitos humanos é a falta de acordo em relação à forma de pontuar. O eninciado-tipo é o de "quem começou primeiro". Exemplo característico é o do alcoólico e sua mulher: ela diz que o controla porque ele bebe, ele dizendo que bebe porque ela o controla.

REDUNDÂNCIA E RUÍDO

Este conceito refere-se à frequência de aparição de configurações de palavras, ideias, de mensagens num sentido amplo, numa sequência comunicativa. Toda a comunicação redundante é significativa, dá-nos pistas sobre a visão do mundo do emissor, permite-nos aceder a esse mundo de uma forma empática. Exemplo: uma mulher infeliz no seu casamento e incapaz de modificar a sua situação, descreve os seus sintomas com redundâncias como "sinto-me atada, prisioneira, sinto como se tivesse um nó aqui...". Atadura, prisão, nó, palavras que ao utilizá-las nos prmitem aceder empaticamente ao seu mundo relacional.

A MENSAGEM DEPENDE DO RECEPTOR

Vimos no início que na teoria da informação se assinalam como elementos da informação o emissor, canal, código e mensagem; mas na comunicação humana existe uma distorção que faz com que J. Lacan chame a atenção para o facto de que "O mal entendido é essencial à comunicação humana", o que se deve a que a interpretação da mensagem depende sempre do receptor. Segundo ele, numa relação nunca devemos dar por entendidas as nossas palavras pela parte do receptor; devemos explorar mais adiante: temos que procurar, ao dirigirmo-nos ao receptor, utilizar palavras unívocas e assegurarmo-nos que este entendeu exactamente aquilo que queríamos transmitir.

Habilidades en Salud Mental - Lógica Relacional Humana E Conceitos De Comunicação [I]

Adaptado de "Habilidades en Salud Mental", edição de Março de 2005, por JA Barbado Alonso, JJ Aispiri Diaz, PJ Cañones Garzón, A Fernández Camacho, F Gonçalves Estella, JJ Rodríguez Sendín, I De la Serna de Pedro, JM Solla Camino.
Os links e expressões a bold são da responsabilidade de CJT.
[imagem: Luísa Ferreira]


CONCEITOS DE COMUNICAÇÃO HUMANA
As ideias a respeito da comunicação humana variaram no decurso do séc. XXI. O ponto de partida foi a formulação em 1946, por Shannon, da "Teoria matemática da Comunicação", a partir de estudos sobre codificação e telégrafos. É uma teoria informativa: o papel da comunicação reduz-se à transmissão de conteúdos.

Posteriormente, o profeta da cibernética, Wiener, introduziu o conceito de RECTROACÇÃO: a informação sobre a acção permite ao sistema autocorrigir-se. Nasce a RECTROALIMENTAÇÃO: o receptor devolve e corrige a informação do emissor.

O modelo de Shannon foi adoptado por um linguista, Jacobson, para demonstrar um modelo de comunicação verbal usado até aos dias de hoje.

A inclusão do contexto no qual se produz a comunicação abriu um amplo campo de significados no estudo desta. A proposta do modelo apresentado por Haley é bem ilustrativa.

Transmissão de informação, rectroalimentação do destinatário e contexto comunicacional completam a abordagem a um modelo de comunicação humana e estabelecem três áreas fundamentais do seu estudo:


  • SINTÁTICA: estudo da linguagem, dos processos de ruído, redundância, canais, etc.,

  • SEMÂNTICA: estudo do significado dos signos,

  • PRAGMÁTICA: estudo dos efeitos na conduta.

O contexto da comunicação verbal é a comunicação não verbal.


COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL

A comunicação não verbal deve estudar-se, não como uma unidade isolada, mas como uma parte inseparável do processo de comunicação. Pode servir para repetir, contradizer, substituir, complementar, acentuar ou regular a comunicação verbal. É a linguagem das emoções, identificadas através de inúmeros sinais como as expressões faciais, a postura, actos explícitos, gestos, que demonstram e regulam o comportamento do indivíduo.

DIFERENÇAS ENTRE COMUNICAÇÃO VERBAL E NÃO-VERBAL

Existem várias diferenças entre os dois tipos de comunicação, que permitem conseguir determinar a importância da comunicação não-verbal.

  • A comunicação verbal tem uma correspondência arbitrária entre a informação e a sua expressão digital; isto é, entre a palavra e a coisa nomeada não existe uma similitude, apenas uma convenção ou consenso cultural. Por exemplo, não há nada no objecto mesa que remeta para a palavra "mesa". Por outro lado, na comunicação não-verbal há algo particularmente similar à coisa expressa: algo semelhante existe entre um gato e o desenho de um gato. Alguma coisa é captada quando se vê um programa de televisão estrangeiro: a linguagem do corpo tem raízes evolutivas mais arcaicas e, portanto, mais universais.
  • A comunicação não-verbal é mais utilizada para definir o tipo de relação que para dar informação. A informação é mais própria do meio digital. A relação entre os animais domésticos e o homem demonstra como aqueles compreendem a linguagem não-verbal que acompanha a palavra.
  • É muito difícil uma disfarçar ou mentir na linguagem não-verbal [contrariamente à verbal]. Pode-se comprová-lo quando tentamos imaginar ou expressar com linguagem não-verbal uma falsa ideia de "não estou aborrecido": Teríamos que expressar primeiramente o enfado para logo negá-lo. Também se podem observar na multiplicidade de sinais aqueles que delatam um mentiroso.
  • A comunicação não-verbal caracteriza-se pela sua ambiguidade e dificuldade de tradução em linguagem verbal; é apenas definível no contexto onde se produz. Lágrimas, um sorriso, um punho cerrado, cada um será traduzido consoante o contexto do momento: receber um presente pode ser interpretado como afecto, suborno ou restituição, dependendo do contexto prévio.
  • A comunicação não-verbal não está sob o absoluto controlo voluntário. Emitimos sinais não-verbais que, por exemplo, determinarão a primeira impressão que causamos numa interacção. Pode dizer-se que "Somos donos das nossas palavras e escravos dos nossos silêncios".

ELEMENTOS DE COMUNICAÇÃO NÃO-VERBAL

Mencionou-se que a linguagem não-verbal é sobretudo a linguagem das emoções. A conexão entre o físico e o emocional manifesta-se nas expressões verbais e corporais e desenvolve-se na interacção social. A linguagem participa nesta ligação reflectida em expressões como "perder a cabeça", "andar de cabeça erguida", ter "cara de poker"...

É clássico dividir as diferentes dimensões da expressão da linguagem não-verbal em CINESIA, PARALINGUÍSTICA e PROXÉMICA.

A cinesia corresponde à linguagem corporal, incluindo gestos, movimento do corpo, expressões faciais, movimentos oculares e postura. Franzir o sobrolho, deixar os ombros caídos ou inclinar a cabeça são condutas compreendidas no campo da cinesia. Num esforço de orientação no mundo relativamente desconhecido da conduta não-verbal, Ekman e Friesen desenvolveram um sistema de classificação dos comportamentos não verbais: Emblemas, Ilustradores, Demonstrações de afecto, Reguladores e Adaptadores.

A paralinguística ocupa-se dos aspectos semânticos da linguagem, prestando mais atenção à forma como se dizem as coisas do que com o seu conteúdo. A voz, a entoação, o ritmo do discurso, as pausas, são considerados elementos paralinguísticos. Através de vocalizações, transmitimos diferentes emoções: autoridade, sossego, raiva, felicidade, segurança... Empregar o tom de voz adequado a cada contexto ou situação é uma poderosa, eficaz e assertiva ferramenta de comunicação.

Na proxémica, o sentido do EU do indivíduo não está limitado pela sua pele. Desloca-se dentro de uma espécie de borbulha privada que representa a quantidade de espaço que sente dever existir entre ele e os outros. Este espaço pode variar em função de cada cultura. Este comportamento de territorialidade também pode ser observado em animais. Na nossa cultura ocidental existe uma escala aproximativa:

  • DISTÂNCIA DE CONTACTO: a esta distência, as pessoas comunicam-se não só por meio de palavras mas também pelo tacto, odor, temperatura do corpo;
  • DISTÂNCIA PESSOAL PRÓXIMA: a esposa pode permanecer a seu gosto dentro da bolha do seu marido mas talvez esta se sinta incomodada se outra mulher o tentar;
  • DISTÂNCIA PESSOAL LONGÍNQUA: está limitada pela distância do braço, isto é, pelo limite do domínio físico;
  • DISTÂNCIA SOCIAL PRÓXIMA: num gabinete, as pessoas que habitualmente trabalham juntas normalmente adoptarão esta distância para conversar;
  • DISTÂNCIA SOCIAL LONGÍNQUA: corresponde às conversas formais. Os gabinetes de pessoas importantes tendem a ser bastante amplos por forma a manter esta distância em relação aos seus visitantes;
  • DISTÂNCIA PÚBLICA: adequada para pronunciar discursos ou tipos muito rígidos e formais de conversação.